sexta-feira, 12 de novembro de 2010

POESIAS_ Lírico Mistério

Dizem que a minha poesia é sonho
e que é pura fantasia os meus versos,
com os quais meu delírio componho...
Se ando na chuva para chegar mais depressa
ao encontro da musa,
que não virá por mais que eu peça...
Se daquela que de amor clamo a urgência,
não guardo nenhuma noite,
somente todas as manhãs de ausência...
Se o inverno das inúteis esperas,
não sombreia nos poemas a luz que reflete
o murmúrio de antigas primaveras...
E se há um mistério que me condena
à inspiração em favor da ilusão,
vale minh'arte o labor da pena?


Antonio Maria Santiago Cabral
Publicado no Recanto das Letras em 26/06/2010
Código do texto: T2342194

Versiprosa de Antonio Maria
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CONTOS_ Tempos do BB: Proibido transar em hotel familiar

Pindaré-Mirim, cidade do interior do Maranhão, 1970. O hoje respeitável autor do Recanto das Letras que vos escreve, apesar de funcionário do BB e ex-estudante de Direito, era um cabra safado, louco por uma cachaça e frequentador habitual de puteiros. Eu dividia um quarto de hotel com o meu colega Soares, por sinal, outro cabra safado.
O velho Lourenço, dono do hotel, era intolerante nessa questão de visitas femininas aos quartos dos rapazes, principalmente à noite. Bradava, enérgico: “Quem quiser trepar, que vá para o motel, pois este é um hotel familiar; quem for flagrado empernado com alguma quenga, vai pra rua na hora!”
Então, num sábado, de madrugada, acordei por causa de uns ruídos estranhos no quarto. Apurei a vista e pude perceber na penumbra que o Soares estava num maior rala-e-rola com uma mulher na sua cama; apenas dois metros separavam as nossas duas camas e por isso pude perceber que o “material” que o Soares atacava era de primeira qualidade. Apesar disso, fiquei indignado e acendi a luz, reclamando:
- Pô, cara, assim não dá! Tu trazes uma mulher pro nosso quarto, contrariando as normas do hotel e quando o velho Lourenço souber, vai nos expulsar do hotel! E eu vou “pagar o pato” também, sem ter nada a ver com essa safadeza!
Assustaram-se os dois, a mulher cobriu-se rapidamente, e o Soares procurou contemporizar:
- Qual é, cara, o velho Lourenço só vai saber se tu contares...
- E por que eu não contaria? Isso é uma desmoralização para o nosso quarto e, além disso, estão perturbando o meu sossego!
- Se tu ficares de bico calado, ela transa contigo também. E de graça!
Estavam tentando me subornar, mas a carne é fraca. Procurei confirmar com a distinta dama:
- Isso é certo? Tu vais transar comigo também? E de graça?
A mulher respondeu com um sorrisinho safado:
- Sim, fazer o quê? É melhor que parar na cadeia por invadir o hotel do velho Lourenço, que é uma fera.
E para alguém que se dizia "obrigada a fazer aquilo em duas camas", a mulher teve uma alegre, formidável e surpreendente performance quando chegou a minha vez...
Às 7 horas da manhã, na porta do banco, o Soares lembrou-me:
- Olha aí, cara, não esquece que no próximo sábado é a tua vez. Vê se trazes uma quenga tão boazinha quanto essa, hã?

Antonio Maria Santiago Cabral
Publicado no Recanto das Letras em 23/02/2010
Código do texto: T2102852

Versiprosa de Antonio Maria
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terça-feira, 6 de julho de 2010

POESIAS_Acordes Sensuais da Minha Lira



















NOITES E NOITES...

São perfeitas as noites feitas para o amor...
Mas não há noites mais perfeitas
do que aquelas que foram feitas
para as loucuras de amor...

DELICIOSO VENENO

Eu só preciso
do teu vago aceno
para me envenenar de ti,
pois tu és o meu delicioso veneno!...

REMÉDIO PERIGOSO

Contra a mesmice do cotidiano,
drogo-me de ti,
e estou perto de uma overdose.

MARAVILHOSO POEMA

Maravilhoso poema és tu,
quando versejo
de desejo,
no teu belo corpo nu.

SONHADOR DE ABSURDOS

Meu desejo de tê-la
é miragem do grão de areia,
sedento da fugidia estrela.

TORRENTE DE PAIXÕES

Teu corpo é rio
ondulado e fremente quando, em fúria,
encontra a onda bravia
do meu mar - pororoca de luxúria....

A FLOR DO SEXO

Já umedecida
pelo orvalho do teu desejo,
a tua flor abre-se para mim.

ALPINISTA

Como um lúbrico alpinista,
percorro a trilha dos enleios
oferecidos pelos afrodisíacos montes
dos teus belos seios.

NA FOGUEIRA DA LUXÚRIA

Quando ficaste nua, os teus seios
logo me tornaram do teu fogo cativo;
depois, o teu púbis lindo me faz desejar, sem receios,
dentro de ti ser queimado vivo!

MORTE E VIDA

No teu corpo eu morro, em languidez e aturdido,
neste orgasmo de intensa e erótica luz,
e me recobro, renascido,
e de olhos mergulhados nos teus belos seios nus.

DESEJOS A SÓS

Nesta noite te homenageio com solitária ereção...
Nesta noite, por mim, talvez o teu sexo
seja fogueira queimando na solidão...

A FLOR MAIS RARA

Um poeta - defensor da ecologia - de felicidade vibrou,
pois, viajando pelo corpo da amada,
descobriu entre as suas pernas uma rara flor!

SEIOS

Ela me perguntou:
"Tu sabes, amor, os meios
para, sem receios,
ter boca e mãos nos meus enleios?
Respondi, rápido: "Sei-os!"

O LÚBRICO INVASOR

Hoje será noite de percorrer todos os caminhos
do desejo, florestas de úmidas sombras... Eu serei infernal
invasor da tua rubra cidadela, mas só armado de carinhos,
para penetrar, enfim, no teu reduto final!

SEMPRE A PRIMEIRA VEZ...

Hoje, entre tuas curvas e labirintos, e a maciez
do teu corpo, de novo vou morrer e renascer,
pois, em ti, toda noite é a minha primeira vez...

ESTILOS

No meu estilo lírico,
canto às musas o amor – idealizada chama -
no meu estilo físico,
quero a poesia dos corpos nus sobre a cama.





Antonio Maria Santiago Cabral
05/07/2010, Código do texto: T2359533
Versiprosa de Antonio Maria
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CONTOS _ A Vidente Soraya

Josemar, quarentão bem situado na vida, alto funcionário do Senado Federal, nunca fora de acreditar em videntes, cartomantes ou coisa parecida. Mas como era um azarado com as mulheres e estava há tantos anos sozinho que não suportava mais a sua própria companhia e, como também, por estranhos caprichos do destino, encontrara um anúncio da vidente Soraya embaixo da sua mesa de trabalho, viera ali para conferir se de fato a mulher “via” as coisas.
Com Josemar sentado à sua frente, a mulher fixou os olhos numa bola de cristal incrivelmente brilhante e disparou, com voz soturna:
- O amigo tem um dos empregos mais invejados do Brasil, já foi noivo três vezes, em todas três não casou porque levou chifres, sofreu de complexo de Édipo na infância, por isso só gosta de mulheres mais velhas. Veio aqui porque quer saber se vai morrer solitário ou se ainda vai encontrar uma esposa ou companheira com quem dividir a sua vida.
Josemar tomou um susto enorme. Por todos os diabos do mundo, a mulher sabia de tudo sobre a vida dele! Retorquiu, um pouco alarmado:
- Sim, sim, é verdade! Mas como soube disso?
- Eu sei de tuuuudo... – e a mulher deu uma gargalhada cavernosa, fixando o olhar na brilhante bola de cristal.
- E o que vê aí sobre o meu futuro, minha senhora?
- Seu mal é que procura longe o que está bem perto de você.
- Como?
- Foi esse o recado que o seu guia espiritual deixou para você. Não vejo mais nada. A consulta está encerrada.
Josemar pagou e saiu, remoendo as palavras da vidente: “Seu mal é que procura longe o que está bem perto de você”.
Chegou ao Senado e foi direto para o seu gabinete, absorto nos seus pensamentos. A sua secretária, Dona Beatriz, após cumprimentá-lo, informou:
- Dr. Josemar, o “poderoso chefão” telefonou várias vezes. Quer saber como é que está a edição dos atos secretos de nomeação de alguns parentes dele.
Josemar irritou-se:
- Atos secretos, atos secretos! No fim, só vai dar pra mim, pois a corda só arrebenta do lado mais fraco! Ninguém prende quem manda, só quem cumpre ordens!
- Pois é... – concordou Dona Beatriz.
Josemar levantou a vista para ela e reparou melhor na sua figura. Teria uns cinquenta e poucos anos, alta, de óculos, sempre impecavelmente vestida em blazers bem talhados. Mas tinha um aspecto severo e parecia ser uma puritana de carteirinha. Com certeza, caretíssima na cama, só o trivial papai-e-mamãe, pensou Josemar. Mas, de repente, ressoaram na sua mente as palavras da vidente Soraya: “Seu mal é que procura longe o que está bem perto de você”. Então, reparou mais ainda em Dona Beatriz: tinha seios fartos e firmes, pernas bem torneadas.
- Vou buscar o seu cafezinho, Dr. Josemar.
Quando a secretária se virou, Josemar recriminou-se mentalmente: “Cego que sou, como ainda não tinha percebido que Dona Beatriz tem um bem apetrechado bumbum?”.
- Espere, Dona Beatriz.
- Pois não, Dr. Josemar.
- Desculpe a pergunta, mas me diga: a senhora é casada?
Pela primeira vez, Dona Beatriz sorriu:
- Não senhor, por quê?
- Porque, sendo assim, pode chegar à sua casa na hora que quiser, não é mesmo? O caso é que preciso de uma opinião de uma terceira pessoa sobre essas nomeações por atos secretos. Ninguém melhor do que a senhora que conhece todas essas mumunhas oficiais. Quer jantar comigo após o expediente para discutirmos o assunto?
- Tudo bem, Dr. Josemar.
Três meses depois estavam casados.
No dia seguinte ao casamento, Soraya telefonou para Beatriz:
- Alô, Beatriz, parabéns, mas não se esqueça de depositar na minha conta o que combinamos, hã?



02/06/2010
Código do texto: T2294967
Antonio Maria Santiago Cabral
Versiprosa de Antonio Maria
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terça-feira, 1 de junho de 2010

POESIAS_ Fazer Parte

Se o amor, como quase todos os sentimentos,
faz parte dos sentimentos perecíveis,
que eu faça parte daqueles momentos
sempre teus - únicos e inesquecíveis.

Antonio Maria Santiago Cabral
Publicado em 10/11/2009
Código do texto: T1915384
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CONTOS_O Amanhã Nunca Morre

Um dia de 1960...
Eles se encontraram num baile na casa dos pais dela. Viram-se e amaram-se. Dançaram o baile todo e nenhum dos dois jamais esqueceu o bolero "Solamente Una Vez" que eles bailaram emocionados ao som da orquestra. Ao fim da festa, ele perguntou:
- Posso te ver amanhã?
Seus olhos já tinham respondido, mas ela completou:
- Mal posso esperar pelo amanhã!
Um dia de 1990...
- Mal posso esperar pelo amanhã!
Repetiu ela para o advogado quando soube que o seu divórcio - com direito à metade dos bens do riquíssimo marido - seria homologado no outro dia.





Antonio Maria Santiago Cabral
Publicado em 25/08/2009
Código do texto: T1773883
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segunda-feira, 31 de maio de 2010

POESIAS_Musas Perigosas

É por isso: sem vê-la ao seu lado,
seu coração é um terreno desabitado...
E pela persistente lembrança dela,
de noite ou de dia,
a qualquer hora,
uma desatinada poesia
nele acampou e se recusa a ir embora...

Tarde demais para o poeta! Também se recusa
a voltar-lhe o pouco
juízo que tinha. De vez, perdeu-o pela musa
e, agora, ei-lo gritando versos, cada vez mais louco!...


Antonio Maria Santiago Cabral
em 19/11/2009
Código do texto: T1933193
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CONTOS_O que vale é a beleza interior...

Ela era lindona mesmo. De parar o trânsito. Por isso, na hora que o seu namorado estava sentado no sofá da sala, jurando-lhe amor eterno, ela debruçou-se sobre ele e perguntou:
- Mas tu me amas mesmo ou só me desejas, porque sou bonita?
- Meu bem, a beleza interior é a que vale. Essa tu tens demais...
- Obrigada, meu amor, assim fico mais tranquila.
E a namorada, que estava com uma blusa decotada e sem sutiã, e uma saia curta, nem reparou no enorme esforço que ele fazia para conter a violenta ereção que o balançar dos seus seios soltos e o bom pedaço de suas roliças coxas lhe causavam...

Antonio Maria Santiago Cabral
Publicado em 03/09/2009
Código do texto: T1790071
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domingo, 30 de maio de 2010

CONTOS_Ausência Real

Quando o viram falando sozinho dentro de casa, suspeitaram que ele estivesse louco. Não estava.
A saudade da mulher amada era tão visível que se tornou presença com quem ele falava todos os dias.



Antonio Maria Santiago Cabral
12/11/2009
Código do texto: T1919471
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POESIAS_ No Garimpo do Desencanto

Num recado que não li,
de tua chegada me avisavas.
Num sono que eu não dormi,
tu me guardavas.
Na tua estrada que não percorri,
tu caminhavas.
Aberta, a porta não estava.
Por que entraste?
Porque a tua estrela que não vi,
me iluminava,
e a tua canção que não ouvi,
me deleitava.
Nem mesmo uma ilusão é visível
na curva do impossível...
Mas, sacudo o barro do desencanto,
garimpando uma palavra pro meu canto.



Antonio Maria Santiago Cabral
23/05/2010
Código do texto: T2274750
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sábado, 29 de maio de 2010

POESIAS_ Fobia

Meus olhos estão abertos,
mas não parecem despertos.
Eriçam-me os pelos,
no teu frio ou no teu calor,
preciso rasgar os selos
que lacram o meu medo de falar de amor...


Antonio Maria Santiago Cabral
Publicado em 19/05/2010
Código do texto: T2266294
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CONTOS_ Terrível Doença!

Depois da separação conjugal, estranhas visões e sons perseguem o homem. O guarda-roupas se abre sozinho, mostrando vestidos que ele sabe que não estão mais lá, o espelho mostra uma vaga imagem feminina por trás dele, murmúrios estranhos enchem os seus ouvidos nas madrugadas insones. Ele pensa que está ficando louco e vai procurar um psiquiatra.
O médico, um homem de olhos tristes, de uns 50 anos, ouve a queixa do paciente, anota os seus dados e, de repente, levanta-se da mesa e berra, agarrado ao paciente:
- Tua doença não tem cura, desgraçado! É saudade, é saudade! Eu também sofro disso!...


Antonio Maria Santiago Cabral
Publicado em 17/09/2009
Código do texto: T1815859
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sexta-feira, 28 de maio de 2010

POESIAS_ Subversivo Poema

O poema queima e ferra
nas páginas frias da madrugada sem sono,
depois cava palavras na terra,
cheia de folhas secas do abandono.
O poeta quer esquecer, mas o poema
prende um grito nas suas mãos duras,
e o poeta, que pragueje, que trema,
solta os versos que visitam as perjuras!


Antonio Maria Santiago Cabral
Publicado em 21/05/2010
Código do texto: T2270071
Versiprosa de Antonio Maria
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CONTOS_ Caronas São Sempre Perigosas

Quem me conta esta história é o meu amigo Rodrigo, um cara cujo namoro está seriamente ameaçado pelos excessivos ciúmes de sua namorada.
Diz ele:
"Antonio, a minha namorada, uma coroa bonita e gente fina, é tão ingênua que votou duas vezes seguidas no Lula. No entanto, vira fera quando o assunto é traição, pois só não vê uma rival em cada canto porque não existe em cada canto uma mulher bonita e gostosa. Para ela, sempre me encho de suspeitíssimas intenções quando um avião (boeing ou mesmo um teco-teco bonitinho) está por perto de mim. Pura insegurança, pois sou sempre sério e correto nos meus relacionamentos amorosos. Veja o que aconteceu um dia desses.
Ela é motorizada, eu não; por isso, sempre me dá uma carona até ao colégio onde leciono. Mas, numa noite, me telefonou, espumando de raiva:
- Não conte com a minha carona amanhã; pegue a carona da sua gatinha.
- Tá maluca? Que gatinha?
- Aquela guria que estava agarrada no seu pescoço, quando passei pelo seu colégio, lá pelas 5 da tarde.
- Disse bem: guria. É uma meninota, me trata como tio.
- Tio, né? Pois sim, tu não me enganas. Se depender de mim, vais a pé para o colégio.
Então, no outro dia, sem contar com ela, estava esperando uma outra carona, quando um carrinho vermelho buzinou. Era uma professora lá do colégio. Aproximei-me:
- Quer carona, professor?
Espiei melhor para dentro e vi um decote assustadoramente revelador, combinado com um par de pernas que deixariam inquietas e desesperadas até mãos santas.
Não me lembro de ter pensado, mas respondi rápido:
- Claro – e peguei a carona.
Dez minutos depois, a professora descobriu que a gasolina não iria dar e parou num posto para abastecer. Ao descer para preencher o cheque, pude observar que realmente o material era de primeiríssima qualidade. Idéias, idéias, por que o diabo nos enche de idéias?... E, de repente, meu celular tocou. Era minha namorada:
- Meu bem, desculpe, acho que exagerei. Está me esperando?
- Não, peguei uma carona com o professor Fernando.
- Então, nos encontraremos depois das aulas?
- Não vai dar, não estamos indo para o colégio, mas sim para um trabalho externo de pesquisa.
- Que pena. Então, tchau. Te amo.
- Tchau. Também te amo.
A professora voltou, sorriu-me docemente (ou voluptuosamente?), a saia subiu bem mais que o normal, acidente que detonou de vez a minha irrecuperável luxúria.
Do posto de gasolina ao colégio seriam 30 minutos. Era o tempo que eu dispunha para convencer a bela professora a matar um dia de aula.
Pois é, Antonio, os ciúmes da minha namorada são pura insegurança emocional. Talvez ela precise fazer terapia."


Antonio Maria Santiago Cabral
Publicado em 19/05/2008
Código do texto: T995566
Versiprosa de Antonio Maria
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quinta-feira, 27 de maio de 2010

ARTIGOS_ Doença Não é Destino

Com base na trágica história do alcoolismo na minha família e principalmente nas histórias que ouvimos todos os dias em salas de Alcoólicos Anônimos, Narcóticos Anônimos e Neuróticos Anônimos, estou perfeitamente convencido de que ninguém se recupera da dependência química ou do descontrole emocional se não se envolver de corpo e alma na sua luta pela recuperação, tal qual o jogador de futebol que coloca o seu coração no bico da chuteira para ganhar o jogo de qualquer maneira.
Vejamos o triste caso do alcoolismo na minha família.
Meu avô paterno, espírita, homem de comportamento austero, jamais fumou qualquer cigarrinho ou tomou uma única gota de álcool em sua vida. Já os seus filhos homens, meu pai e os meus dois tios, morreram prematuramente, vitimados pelo alcoolismo. Eu e os meus três irmãos, filhos de pai alcoólico, nos tornamos também alcoólicos. De onde se conclui que se o alcoolismo tem herança genética, seus genes ora são regra, ora são exceção no caso do descendente alcoólico.
Meu pai e os meus dois tios, segundo contava a nossa mãe, pareciam aceitar pacificamente a sua desgraça engarrafada, nunca manifestando um desejo sincero de abandonar a bebida. Meu tio Berlim morreu com 28 anos, meu pai, com 35 anos, e o meu tio Bernardino, com 38 anos, todos por doenças relacionadas com o uso imoderado de bebidas alcoólicas. Quanto aos meus três irmãos, ambos eram realmente doentes alcoólicos, mas quando eu tentava convencê-los disso, eles faziam um paralelo entre as suas bebedeiras e as minhas, para concluir que eu sim, era alcoólico, mas eles, não! Alguns amigos e parentes também achavam que, em virtude do alcoolismo deles ser muito diferente do meu, eles eram apenas adeptos da garrafa, mas não dependentes. Mas todos morreram prematuramente, em virtude do uso abusivo de bebidas alcoólicas: Vicente, com 42 anos, José, com 59, e Joaquim, com 61.
Eu, considerado caso irrecuperável de dependência química, de loucas e devastadoras crises de embriaguez contínua, desde 1973, agarrei-me ao Programa de Recuperação de AA e depois de N/A, e, mesmo aos trancos e barrancos, sofrendo várias e quase trágicas recaídas, nunca desisti do sonho de recuperação, pois permaneci fiel à idéia de que era um doente alcoólico e que precisava me manter definitivamente afastado do único veículo que impulsionava a minha doença: o álcool. Tive muitos períodos de sobriedade descontínua: seis meses, oito meses, um ano, dois anos, até que, a partir de 1999, nunca mais recaí na garrafa. Nesses 37 anos de AA e de luta contra a dependência alcoólica, contando os quase 11 anos de sobriedade contínua de hoje, mais os períodos de sobriedade descontínua do passado, creio que totalizam aproximadamente 30 anos! Trinta anos sem um único gole! E foi isso que me salvou a vida.
O alcoolismo, como se define comumente em AA, é uma doença que combina uma obsessão (periódica ou temporária) para ingerir bebidas alcoólicas com uma alergia orgânica ou mental para o uso do álcool. E é aqui que reside o mais triste dos paradoxos dos alcoólicos: têm uma atração incomum pela garrafa, mas, após o primeiro copo, descontrolam-se completamente. Trata-se de um doença incurável e progressiva; ou o indivíduo para de beber ou vai beber até morrer – quase sempre indigna e prematuramente – ou enlouquecer.
Não pude trazer meus irmãos para o AA. Mas tentei. Não é fácil convencer um dependente químico de que ele é um doente e de que precisa tratar-se, seja com terapeutas profissionais, seja em Alcoólicos Anônimos, Narcóticos Anônimos, Neuróticos Anônimos, seja pela conversão a uma Religião. Faz parte dos sintomas da dependência química essa característica de o doente ser o último a reconhecer que está doente e que precisa de ajuda. Isso é desolador e frustrante para os seus familiares e amigos, mas é a regra geral.
A farta pesquisa científica ou leiga sobre a dependência química ou psíquica já comprovam que ela não é causa, mas consequência: o indivíduo, em estado de permanente conflito com o mundo que o cerca tenta fugir e essa fuga pode ser fatal para algumas pessoas, como, por exemplo, o alcoólatra ou o usuário de drogas ilícitas. Mas, quaisquer que sejam as causas da doença emocional, da dependência química ou psíquica, quaisquer que sejam os índices de sucesso da psicoterapia e da farmacoterapia nessa área, já é premissa plenamente aceita pela maioria dos profissionais de Medicina, sociólogos, religiosos e os próprios neuróticos em geral - portadores somente de transtornos emocionais (os chamados “neuróticos puros”), alcoólicos, usuários de outras drogas, dependentes de jogo, comida ou sexo - em tratamento, que a recuperação do indivíduo passa obrigatoriamente pela mudança radical da sua personalidade, em outras palavras, pela sua higiene mental o que, na prática, se pode traduzir por "passar um aspirador de pó no espírito".
Para essa alternativa - que a cada dia se revela mais acertada - estão convergindo as várias correntes de opiniões e terapêuticas, inclusive com a disseminação mundial dos Grupos de Auto-Ajuda (terapia grupal para pessoas que têm problemas comuns), tendência que, a partir da fundação dos Alcoólicos Anônimos, em 1935, vem crescendo de maneira avassaladora no mundo inteiro.
Alcoólicos Anônimos (AA), Neuróticos Anônimos (N/A), Narcóticos Anônimos (NA), Dependentes Amorosos e Sexuais Anônimos (DASA), Fumantes Anônimos (FA), Jogadores Anônimos (JA), Comedores Compulsivos Anônimos (CCA), Mulheres que Amam Demais Anônimas (MADA), núcleos religiosos e os CAPS (Centro de Apoio Psicossocial) estaduais prestam, nos dias de hoje, extraordinárias contribuições para o enfrentamento da problemática da doença emocional com as suas variantes de dependência química ou psíquica. Oferecem gratuitamente e sem quaisquer exigências de ordem social, religiosa ou jurídica, Programas de Tratamento, baseados em terapias grupais que detêm encorajadores níveis de recuperação.
Nesse contexto psicossocial é fundamental que, independente do programa, meio ou instituição de que o dependente químico ou doente emocional se valha para tratar-se, ele seja esclarecido – sem sofismas ou preconceitos – sobre o seu real estado de saúde mental, emocional e física. É um doente e precisa tratar-se. Às vezes, basta essa conscientização para que ele faça a sua adesão sem restrições ao seu processo de tratamento ou recuperação. Outras vezes, ele procura um reforço adicional no tratamento psiquiátrico ou na conversão religiosa.
Atente-se para o fato de que eu disse "reforço adicional no tratamento psiquiátrico ou na conversão religiosa", porque antes que o doente emocional ou dependente químico admita sem reservas que é um doente e que precisa de ajuda para tratar-se adequadamente, qualquer tipo de tratamento, na minha opinião, tem poucas chances de sucesso.
Na questão do tratamento médico, discute-se a eficácia dos medicamentos psicoativos: antidepressivos, tranquilizantes, ansiolíticos, soníferos, etc. Pode um produto químico - ingerido de fora para dentro - corrigir um distúrbio mental e/ou comportamental - que, obviamente, se produz de dentro para fora? Parece evidente que os medicamentos psicoativos têm indicação e uso extremamente indispensáveis em certos quadros neuróticos graves, tais como, depressão e fobia social severas, síndrome de pânico, insônia rebelde, pensamentos suicidas, etc., mas, de modo geral, parecem atuar mais em cima da sintomatologia do que da etiologia desses transtornos emocionais. Mas, fora disso, eles são, como querem alguns, meros paliativos para uma doença da alma, cuja causa remota até mesmo o próprio doente pode desconhecer?
Somente o tempo e os avanços da Medicina Humana poderão nos elucidar tais questões.
Na questão da conversão religiosa, posso argumentar com a minha própria experiência. Minha mãe, espírita militante, irritava-se com o que chamava de orgulho e teimosia da minha parte, por não aceitar que era vítima de uma obsessão espiritual e que precisava tratar-me em sessões espíritas. Mas estava certa somente numa coisa: eu não aceitava mesmo tratar-me em sessões espíritas, porque, sempre agnóstico, me faltava a fé necessária para ser militante de qualquer religião. Mas eu admitia pacificamente a idéia da obsessão espiritual - já que inacreditáveis incidentes da minha conturbada vida me faziam suspeitar que havia uma sombra inteligente influenciando negativamente alguns acontecimentos. Mas, como já disse, me faltava a necessária fé para a frequência habitual aos templos espíritas; além disso, a obsessão espiritual é uma hipótese filosófico-religiosa, fato que, aqui e ali, batia de frente com a minha fria racionalidade.
Mas, quando cheguei ao AA me disseram simplesmente que se o meu problema fosse igual ao deles, eu era um doente alcoólico e impotente - para toda a vida - para ingerir o primeiro gole de bebida alcoólica e que, cada fez que eu o fizesse, com certeza experimentaria desagradáveis consequências. Meu insuportável racionalismo e o meu orgulho de intelectual recusaram-se inicialmente a admitir que a simples ingestão de um copinho de cerveja poderia desencadear em minha mente uma imperiosa necessidade de beber mais até embriagar-me e causar problemas. Contudo, isso não era uma hipótese, nem uma teoria, era um fato científico: o descontrole alcoólico é irreversível e incurável; portanto, cada triste vez que o desafiei, resvalei pela sarjeta da embriaguez. Que mais provas eu poderia exigir para ter certeza de que a minha incapacidade para usar o álcool é tão orgânica quanto a incapacidade do diabético para usar o açúcar? Nenhuma mais! Por isso, tornei-me definitivamente sóbrio em AA.
De qualquer modo, é somente a partir do momento em que o doente corajosamente resolve buscar toda a ajuda disponível para libertar-se da cruz da sua dependência química ou descontrole emocional, é que estará dando início – talvez sem o saber – a uma experiência espiritual transformadora capaz de levá-lo com segurança à maior das vitórias: a vitória sobre si mesmo.

"Se vir algo faiscando na areia, abaixe-se e pegue. Pode ser um caco de vidro ou uma pérola. Mas você nunca saberá se não a pegar.” (Will Randall)

Antonio Maria Santiago Cabral
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27/03/2010
Código do texto: T2161607

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quarta-feira, 26 de maio de 2010

CONTOS_ Segunda Chance

Quando ela pediu ao meu coração uma segunda chance, infelizmente ele não pôde dá-la. Ela o tinha matado na primeira.


Antonio Maria Santiago Cabral
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03/11/2009
Código do texto: T1902468

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POESIAS_ Cabeça nas Nuvens

Quando ele era menininho
tinha a mania de ficar longas horas sozinho,
olhando para o céu e afirmava
que o seu desejo era viver nas nuvens. Divagava?
Se não, talvez seu futuro na vida
fosse de piloto de avião ou coisa parecida.
Nem alfa nem beta.
Tornou-se poeta.


Antonio Maria Santiago Cabral
http://antoniomaria.prosaeverso.net
17/04/2010
Código do texto: T2202708

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terça-feira, 25 de maio de 2010

POESIAS_ Aonde Foi Que Perdi Meu Sonho??

Nessas lembranças em que me perdi,
mas que são minhas,
ainda há um tempo de ti,
no murmúrio das horas em que vinhas.
Enquanto a tarde se dissolvia lentamente
no escurecer do dia,
em teu corpo mudamente
minha emoção se escorria...
Hoje, teu silêncio fala na minha pele,
tão sossegada do incauto arrepio,
e não há nela nada que revele
a tua boca de antigo cio.
As minhas mãos que habitavam lascivas respostas,
quando a beleza do teu olhar soprava um convite,
tateiam hoje, trêmulas, pelas costas
de um ausência que nem saudade permite.
Não levei flores nem deixei sementes,
do que me perdi não mais me reponho,
mas, grito, em noites dementes:
Aonde foi que perdi meu sonho?


Antonio Maria Santiago Cabral
http://antoniomaria.prosaeverso.net
15/05/2010
Código do texto: T2258881

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CONTOS_ Efeitos Colaterais de Um Pedido de Divórcio

Próspero empresário do ramo de eletrodomésticos, João apaixonou-se perdidamente pela sua secretária Lu, uma morena filé, de rosto, seios, pernas e bunda capazes de endoidar um santo. Amavam-se loucamente, e como o delicioso petisco vestido de mulher ameaçara largá-lo caso ele não se separasse da esposa com a qual estava casado há 30 anos, João criou coragem e foi falar com a cara-metade:
- Marta, temos um problema.
- Qual?
- Estou apaixonado por outra mulher e quero divórcio.
- Sem problemas, amor. Segundo a sua declaração de Imposto de Renda, você fatura cem mil reais por mês. Trinta e cinco por cento disso me dará uma pensão mensal de trinta e cinco mil reais. Os seus bens estão avaliados em dois milhões de reais. Tenho direito à metade e não vou aceitar nada menos que isso. E aí, amor, você e a sua vagabunda podem ir para o raio que os partam!
Desistiu do divórcio e telefonou para a amante:
- Lu, minha querida, não vai dar! A bruaca exige uma pensão mensal de trinta e cinco mil reais e metade dos meus bens. Vamos ficar como estamos?
- Nada disso, não quero ser sempre a outra. Ou se separa da fulana ou eu caio fora dessa relação.
- Mas isso está fora de cogitação, se eu me separo da minha mulher ela me deixa quase pobre! Então, como ficamos?
- Não ficamos. Meu advogado conversará com você, cretino.
- Advogado? Por quê?
- Você é casado, mas mantínhamos uma relação estável.
- Mas, como você pode provar isso?
- Fácil. As câmeras daquele motel do meu amigo Ricardão filmaram as nossas transas várias vezes. Além disso, lembra-se daquela vez em que você, não se controlando de excitação, ejaculou na minha calcinha?
- Sim, sim, mas...
- Pois é, amor, guardei a calcinha como lembrança do fato e do seu sêmen. Um exame de DNA...
João tremeu: como podia ter esquecido do famoso golpe aplicado pela Mônica Levinsky em cima do todo-poderoso presidente americano Bill Clinton?
João continua casado com a bruaca, mas perdeu a bela morena que, para não armar um barraco sócio-judicial, recebeu uma gorda indenização lançada na contabilidade da empresa na rubrica "Serviços Prestados".
E um mês depois desse fracassado pedido de divórcio, João contratou uma nova secretária. Gostosíssima, um avião.
Tem homem que não aprende.

Antonio Maria Santiago Cabral
http://www.antoniomaria.prosaeverso.net
14/07/2009
Código do texto: T1699019






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