sexta-feira, 12 de novembro de 2010

POESIAS_ Lírico Mistério

Dizem que a minha poesia é sonho
e que é pura fantasia os meus versos,
com os quais meu delírio componho...
Se ando na chuva para chegar mais depressa
ao encontro da musa,
que não virá por mais que eu peça...
Se daquela que de amor clamo a urgência,
não guardo nenhuma noite,
somente todas as manhãs de ausência...
Se o inverno das inúteis esperas,
não sombreia nos poemas a luz que reflete
o murmúrio de antigas primaveras...
E se há um mistério que me condena
à inspiração em favor da ilusão,
vale minh'arte o labor da pena?


Antonio Maria Santiago Cabral
Publicado no Recanto das Letras em 26/06/2010
Código do texto: T2342194

Versiprosa de Antonio Maria
http://antoniomaria.prosaeverso.net


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CONTOS_ Tempos do BB: Proibido transar em hotel familiar

Pindaré-Mirim, cidade do interior do Maranhão, 1970. O hoje respeitável autor do Recanto das Letras que vos escreve, apesar de funcionário do BB e ex-estudante de Direito, era um cabra safado, louco por uma cachaça e frequentador habitual de puteiros. Eu dividia um quarto de hotel com o meu colega Soares, por sinal, outro cabra safado.
O velho Lourenço, dono do hotel, era intolerante nessa questão de visitas femininas aos quartos dos rapazes, principalmente à noite. Bradava, enérgico: “Quem quiser trepar, que vá para o motel, pois este é um hotel familiar; quem for flagrado empernado com alguma quenga, vai pra rua na hora!”
Então, num sábado, de madrugada, acordei por causa de uns ruídos estranhos no quarto. Apurei a vista e pude perceber na penumbra que o Soares estava num maior rala-e-rola com uma mulher na sua cama; apenas dois metros separavam as nossas duas camas e por isso pude perceber que o “material” que o Soares atacava era de primeira qualidade. Apesar disso, fiquei indignado e acendi a luz, reclamando:
- Pô, cara, assim não dá! Tu trazes uma mulher pro nosso quarto, contrariando as normas do hotel e quando o velho Lourenço souber, vai nos expulsar do hotel! E eu vou “pagar o pato” também, sem ter nada a ver com essa safadeza!
Assustaram-se os dois, a mulher cobriu-se rapidamente, e o Soares procurou contemporizar:
- Qual é, cara, o velho Lourenço só vai saber se tu contares...
- E por que eu não contaria? Isso é uma desmoralização para o nosso quarto e, além disso, estão perturbando o meu sossego!
- Se tu ficares de bico calado, ela transa contigo também. E de graça!
Estavam tentando me subornar, mas a carne é fraca. Procurei confirmar com a distinta dama:
- Isso é certo? Tu vais transar comigo também? E de graça?
A mulher respondeu com um sorrisinho safado:
- Sim, fazer o quê? É melhor que parar na cadeia por invadir o hotel do velho Lourenço, que é uma fera.
E para alguém que se dizia "obrigada a fazer aquilo em duas camas", a mulher teve uma alegre, formidável e surpreendente performance quando chegou a minha vez...
Às 7 horas da manhã, na porta do banco, o Soares lembrou-me:
- Olha aí, cara, não esquece que no próximo sábado é a tua vez. Vê se trazes uma quenga tão boazinha quanto essa, hã?

Antonio Maria Santiago Cabral
Publicado no Recanto das Letras em 23/02/2010
Código do texto: T2102852

Versiprosa de Antonio Maria
http://antoniomaria.prosaeverso.net


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