sábado, 11 de junho de 2016

MEUS TEXTOS DE AUTOAJUDA__OS CAMINHOS DA MINHA RECUPERAÇÃO - PARTE I


Quando eu falo da avassaladora dependência química que me me imobilizou para o crescimento social e financeiro, durante 30 anos de minha vida, revelando fatos e comportamentos deploráveis, muita gente supõe que dois motivos me levam a isso:
a) Que quero ser visto quase como um herói: fui lá no fundo do poço, voltei, então, aplausos para mim...
b) Uma franqueza socialmente idiota, por revelar um passado cheio de atos pouco recomendáveis e que ninguém necessariamente precisa saber.

Mas, não é nada disso. Em primeiro lugar, não me orgulho de ter sido, um dia, um dependente químico no mais alto grau: perdi famílias, invejáveis empregos, reputação, credibilidade, peregrinei por hospitais psiquiátricos, fiz coisas que hoje me arrepiam de repulsa, à sua simples lembrança. Então, entre ter caído no fundo do poço e dele ter saído, e nunca ter tido esse fundo de poço, ou seja, nunca ter sido alcoólico, mil vezes preferível a segunda opção. Em segundo lugar, se eu arquivar a minha experiência de sofrimento e recuperação do alcoolismo na pasta de "Casos Resolvidos", sinto que cometo uma enorme ingratidão com um Poder Superior que um dia me fez chegar, desesperado e quase sem esperanças, a uma sala de um grupo de A.A. As pessoas que hoje caem pelas sarjetas da vida, vitimadas pelo alcoolismo, precisam saber que há uma solução para os seus problemas e que essa solução está bem perto delas; portanto, não me é lícito calar. Mas, antes de falar sobre o AA e do seu Programa de Recuperação do Alcoolismo, preciso destacar o papel que o casal de filhos que criei sozinho, a partir de 1979, assumiu nessa movimentada novela da minha vida.

A mãe de Daniele e Marcus comportou-se com tamanho desequilíbrio como mãe e como mulher que um juiz de uma Vara de Menores, em 1979, mesmo sabendo-me alcoólico, confiou a mim a guarda judicial de dois filhos com 2 e 3 anos de idade. Alguns, entretanto, viram nisso um ato de loucura, pois como um alcoólico poderia tomar conta de duas crianças tão pequeninas?
Fazendo a releitura desse fato, agora, me lembro do ditado popular que diz que “Deus escreve certo por linhas tortas”. Abandonado e criticado por todo mundo, envolvido por uma dependência química das mais terríveis, tendo caído numa espantosa decadência financeira e social – de gerente de banco e universitário, com casa própria e carro, em 1978, para morador de um barraco coberto de palha, sem luz elétrica e água encanada, num povoado da zona rural, em 1980 – se eu não tivesse um poderoso e sublimado objetivo a alcançar e a me nutrir de força moral suficiente para me soerguer sempre que tropeçasse nas pedras do caminho, talvez eu tivesse me entregado à própria sorte e talvez não estivesse mais aqui falando dessas coisas.
Cuidar e educar os filhos, que fui obrigado a criar sozinho, era esse poderoso e sublimado motivo, o qual, graças a Deus, foi alcançado. Cresceram, tornaram-se independentes e hoje têm as suas próprias famílias. Por isso, ou talvez mais por isso, encontrava forças para me levantar tantas vezes quantas fossem as quedas, enxugar as lágrimas e esquecer o desprezo, as humilhações e ofensas daqueles que só enxergavam em mim o bêbado, nunca o pai amoroso e dedicado como eu realmente era em estado de sobriedade.

Para atingir a minha plena recuperação da devastadora dependência química que assolou a minha vida por 30 anos – e que me deixou muitas vezes a um passo da loucura e da morte – o que realmente me valeu e fez toda a diferença, foi sem dúvida alguma a minha grande e obstinada vontade de me recuperar completamente, de levar uma vida normal, fugindo do meu inferno de bebedeiras, ressacas físicas e morais, frustrações, desespero – enfim, abandonar definitivamente um viver inútil e destrutivo. E, com certeza, o fato de me considerar responsável por mais vidas – além da minha – me impunha uma obrigação moral de me manter de pé, levantando-me toda vez que caía.

E não eram só Marcus e Daniele, os filhos que eu tinha sob a minha guarda, que me forneciam a motivação para me levantar tantas vezes quantas caía. Havia o Ricardo, o meu primogênito, no Rio de Janeiro, esperando que o seu pai emergisse das sombras para se reapresentar na sua vida; havia a Marcela, a Paula e a Jéssica, da minha instável união com Maria, que, apesar disso, esperavam de mim gestos de amor e proteção.

Ao lado da minha recuperação da dependência química, ter conseguido manter o afeto e o respeito dos meus filhos, antes, durante e depois do vendaval, que sacudiu a minha alma por 30 anos, eis o que, neste momento, umedece os meus olhos de enternecido orgulho, principalmente porque, talvez como um prêmio à minha resistência e à capacidade de me doar ao amor, o Poder Superior tenha me enviado, em 2009, já no meu terceiro casamento, mais uma vidinha para eu amar, proteger e cuidar.

Antonio Maria S. Cabral
Professor e Escritor
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