sábado, 11 de junho de 2016

MEUS TEXTOS DE AUTOAJUDA___OS CAMINHOS DA MINHA RECUPERAÇÃO - PARTE II



Quanto ao A.A., declaro, a quem interessar possa, que um espírito rebelde, de tendências anarquistas e mundanas, como é o meu, jamais conseguiria a sua plena recuperação do alcoolismo, se não contasse sempre com a ajuda do Programa de Recuperação de A.A.
O alcoolismo, como se define comumente em A.A., é uma doença que combina uma obsessão (periódica ou temporária) para ingerir bebidas alcoólicas com uma alergia orgânica ou mental para o uso do álcool. E é aqui que reside o mais triste dos paradoxos dos alcoólicos: têm uma atração incomum pela garrafa, mas, após o primeiro copo, descontrolam-se completamente. Trata-se de uma doença incurável e progressiva; ou o indivíduo para de beber ou vai beber até morrer – quase sempre indigna e prematuramente – ou enlouquecer.

Qual é o melhor tratamento para o alcoolismo, uma doença tão desconcertante e paradoxal que dá às suas vítimas uma paixão contínua ou periódica pelo álcool que, entretanto, as atira sempre para a sarjeta da vida?
Na questão do tratamento médico, discute-se a eficácia dos medicamentos psicoativos: antidepressivos, tranquilizantes, ansiolíticos, soníferos, etc. Mas, pode um produto químico – ingerido de fora para dentro – corrigir um distúrbio mental e/ou comportamental que obviamente se produz de dentro para fora? Parece evidente que os medicamentos psicoativos têm indicação e uso extremamente indispensáveis em certos quadros neuróticos graves, tais como depressão e fobia social severas, síndrome de pânico, insônia rebelde, pensamentos suicidas, etc., mas, de modo geral, parecem atuar mais em cima da sintomatologia do que da etiologia desses transtornos emocionais. Mas, fora disso, eles são, como argumentam alguns estudiosos do assunto, meros paliativos para uma doença da alma cuja causa remota até mesmo o próprio doente pode desconhecer? Somente o tempo e os avanços da Medicina poderão nos elucidar tais questões.

Na questão da conversão religiosa, posso argumentar com a minha própria experiência. Minha mãe irritava-se com o que chamava de meu orgulho e teimosia que, segundo ela, não me deixava admitir que eu era uma vítima de uma obsessão espiritual e que precisava me tratar através de terapias religiosas. Ela estava certa, mas somente numa parte: eu não aceitava mesmo tratar-me à luz dos dogmas religiosos, porque, sempre agnóstico, me faltava a fé necessária para ser militante de qualquer religião. Mas eu admitia pacificamente a ideia da obsessão espiritual – já que inacreditáveis incidentes da minha conturbada vida me faziam suspeitar que havia uma sombra inteligente influenciando negativamente alguns acontecimentos. Mas, como já disse, me faltava a necessária fé para a frequência habitual aos templos religiosos; além disso, a obsessão espiritual é uma hipótese filosófico-religiosa, fato que, aqui e ali, batia de frente com o meu insuportável racionalismo.

Mas, quando cheguei ao A.A. me disseram simplesmente que se o meu problema fosse igual ao deles, eu era um doente alcoólico e impotente – para toda a vida – para ingerir o primeiro gole de bebida alcoólica e que, cada fez que eu o fizesse, com certeza experimentaria desagradáveis consequências. Logo o meu já temerário racionalismo e o meu orgulho de intelectual recusaram-se a admitir que a simples ingestão de um copinho de cerveja poderia desencadear em minha mente uma imperiosa necessidade de beber mais, até me embriagar e causar problemas. Contudo, isso não era uma hipótese nem uma teoria, era um fato científico: o descontrole alcoólico é irreversível e incurável; portanto, cada triste vez que o desafiei, resvalei pela sarjeta da embriaguez. Que mais provas eu poderia exigir para ter certeza de que a minha incapacidade para usar o álcool é tão orgânica quanto à incapacidade do diabético para usar o açúcar? Nenhuma mais! Por isso, tornei-me definitivamente sóbrio em A.A.
Alcoólicos Anônimos não foi um caminho aberto por mim, mas sim, por um Poder Superior, para tornar mais leve o meu jugo nessa espinhosa caminhada e para que eu pudesse me levantar com mais facilidade das minhas muitas quedas e desesperanças. No fim, essa generosa dádiva de Deus fizeram a diferença entre a loucura e a lucidez, entre uma morte indignamente prematura e uma velhice honrada, cercada do respeito dos que me são caros.

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(Se você ou alguém que você conhece, tem problemas com o uso imoderado de bebidas alcoólicas, ligue para o Escritório Local de Serviços de AA no Maranhão, Tel: 3222-4050)


Antonio Maria S. Cabral
Professor e Escritor
BLOG: ANTONIO CABRAL, ARTE E OPINIÃO
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