sexta-feira, 10 de junho de 2016

REFLEXÕES DE LULALÁ, O PERSEGUIDO DAS ZELITES

"Respeitem a minha história: sou do Nordeste, onde pobre só come carne quando morde a língua, me tornei metalúrgico em São Paulo, perdi um dedo, me aposentei, me tornei sindicalista pelego, um fazedor de greves. Está certo que, nesse tempo, eu morava numa mansão de um rico industrial paulista, mas era um presente que ele me dava, por que não aceitar? Logo descobri que ser de esquerda, num país de otários, dava dinheiro e votos. Então, vesti uma camisa vermelha, não por acaso a cor preferida dos comunistas, e modernizei o PT, aparelhando-o para chegar ao poder. Perdi 3 vezes seguidas, mas um dia, tipo aquela história de "Água mole em pedra dura..............," eu cheguei lá.

E como eu era um nordestino de origem pobre, um aposentado do INSS, todo pé-rapado do país se sentiu representado na Presidência da República! Lembro-me de uma das manchetes da época, que me divertiu muito: "O Brasil tem um operário no poder!" Comemorando o presente recebido do povão, nas eleições de 2003, em suíte de luxo, desfrutando de caviar e champanhe, eu ria tanto que a minha mulher pensou que eu estava ficando doido. Mas, depois que eu expliquei para ela o que eu pensava em fazer com aquele presente, na verdade, como já dizia Jesus, lá pras bandas de Nazaré ,"pérola em focinho de porco...", ela ficou quase louca. De tanto rir, é claro!

Lépido e fagueiro, comecei a governar. Tendo herdado das zelites uma economia sólida e altamente confiável, tudo corria às mil maravilhas na nação tupiniquim, coisa de que logo me atribuíram os méritos; então, fiquei tranquilão, tomando as minhas cachacinhas na adega do Alvorada, se bem que lá também haja vinho do Porto, uísque escocês e legítima vodka da Rússia. E para comprovar a minha teoria de que ninguém precisa de estudo para governar um país de bestas, eu, semianalfabeto, fui reeleito para mais um mandato! Estava tudo sob controle, mas eu queria ser um novo Getúlio Vargas, que um dia foi apelidado de "Pai dos Pobres", só porque teve um Ministro do Trabalho que criou a C.L.T.

Então, contratei o João que, embora devoto de Santa Ana, era cheio das artes do diabo: criou as Bolsa-Esmola, cujos cartões eram abocanhados, logo na fonte, pela corrupção de prefeitos, primeiras-damas e vereadores. Mas um pobre dinheirinho é melhor do que nenhum dinheirinho e, por isso, nos lugares pobres, especialmente no Nordeste, o dinheirinho que escapava do filtro da corrupção incentivava meninas ainda púberes a engravidarem e a parirem logo um bebê, para que a família pudesse receber R$ 180,00, que mal cobriria o custo da alimentação de uma família de 3 pessoas por mais de uma semana. Mas e daí? Programas são programas, o que vale é a intenção. Além disso, o meu marqueteiro – o das artes do diabo – plantou na mídia subserviente a hiperbólica lenda de que o Governo do PT houvera permitido que a metade dos brasileiros saísse da linha da pobreza absoluta e entrado direto para a classe média! Isso fez a minha popularidade alcançar 87% e o índice de aprovação do meu governo chegar a 82%, números jamais vistos em toda a nossa história republicana! Isso também me encheu de ideias e encomendei estudos visando conseguir uma emenda constitucional que me permitisse um terceiro mandato consecutivo, pois se não era possível ser, no Brasil, um novo Fidel Castro, já estava de bom tamanho ser um novo Hugo Chávez. Mas ninguém engoliu a pílula, isto é, a ideia, e só me restou uma alternativa: fazer o meu sucessor ou sucessora, e voltar, em bom estilo, em 2018.

Precisávamos pavimentar politicamente a estrada para o meu retorno: tornar o PT forte e imbatível, e escolher um escudeiro (ou escudeira) tão fiel quanto burro, isto é, trabalhar para mim, pensando que trabalhava para ele mesmo! Então encontrei uma ex-guerrilheira – que, dizem as más línguas, também fora assaltante de bancos – dei-lhe um posto graduado e a preparei para ser presidente desse período de transição. De quebra, nós do PT, armamos uma formidável rede de arrecadação de recursos financeiros para custear campanhas eleitorais, que os ignorantes chamam de rede de corrupção (ó povo besta, sô!). Vieram o Mensalão, o Petrolão e outros bichos, ficamos imbatíveis, tanto que elegemos a ex-guerrilheira duas vezes seguidas. Na verdade, anotem aí que eu já ganhei 4 eleições para presidente da república, no Brasil: duas para mim e duas para a moça, que adora pedalar nas manhãs de Brasília.

Tudo estava pronto, tranquilo e favorável, para o meu retorno em 2018, mas a minha fiel escudeira não sabe fazer política, não cultua a arte do cochicho ao pé do ouvido e nem tem a metade do jogo de cintura que eu tenho, em outras palavras, não tem carisma, seja político, seja pessoal. É mal humorada, gosta de dar mijadas nos assessores, e quis fazer, na Economia, o mesmo que faz nas manhãs do Alvorada: dar pedaladas. E aí "a porca torceu o rabo!" Cheguei à triste conclusão que ela é muito melhor para assaltar bancos do que para administrar um país. Meus cupinchas também exageraram demais: ostentação, ganância solta, dinheiro em sacolas, em cuecas e em meias! "Onde há fumaça, há fogo", e os homens da lei se alertaram, fizeram uma Lavajato e colocaram à frente, um mouro botando fogo pelas ventas e já de olho em mim, eu, que estava quietinho no meu tríplex, no Guarujá, e no meu sitiozinho que cabe 40 campos de futebol, lá em Atibaia, todos naturalmente dados como presentes pelos meus diletos amigos, pois eu não tenho nada, sou um nordestino pobre! Ainda que mal pergunte, as Cruzadas não acabaram com os mouros? Por quê, então, tem um mouro solto por aí, me perseguindo, dizendo que eu comandei todo o esquema? Eu não sei de nada, não me lembro de nada, sofro de amnésia, posso apresentar atestado médico! Não tenho quase nada, tudo que eu tenho me foi dado pelos amigos. Estão dizendo por aí que tenho 53 milhões em contas bancárias na Suíça; ora, se isso é verdade, tenho que descobrir qual foi o amigo que depositou esse dinheiro, pois eu não tenho nada, sou um nordestino pobre! Quem sabe não foi o meu filho, ele que já tem um bilhão?

Por Deus e todos os diabos do mundo, o plano era bom, mas a Rainha Louca botou tudo a perder; vão lascar um impeachment no lombo dela e o mouro vai continuar a pegar no meu pé, querendo me levar para ver o sol quadrado! E dizer que eu já me sentia um novo Hugo Chávez, acumulando mandados presidenciais... Mas, pelos chifres de Satanás, não vai ser fácil me derrubar: os vermelhinhos do MST e do PT vão dar trabalho pra essa elite golpista que deseja ver fora de cena o "Lulalá, o único defensor dos pobres que este país já teve"! Mas, meus camaradas, nem tudo está perdido: se eu não der com os costados numa cadeia e, no frigir dos ovos, sobrar uma nova eleiçãozinha, pode ser que eu volte. Olhem só os meus adversários: o mineirinho, também corrupto, e a seringueira, mais doida do que a ex-guerrilheira. Enquanto eu, ah, eu, meus camaradas, eu sou o "Filho do Brasil!..."

Antonio Maria S. Cabral
Professor e Escritor

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